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Um Candango na Belacap

fevereiro 15, 2008

UM CANDANGO NA BELACAP

Roberto Faria, Brasil, 1961
(91 min, preto e branco)

“Candango” inicia num tom muito nacionalista, com imagens belíssimas da inauguração de Brasília (conhecida na época como Novacap) porém o palco de não só dessa mas da maioria das chanchadas da época é o Rio de Janeiro.

Na abertura somos apresentados a Emanuel Davies Jr. (Grande Otelo) e sua parceira Gilda (Marina Marcel), uma loura de sotaque espanhol. Ambos são astros de destaque no Rio de Janeiro, cantores e dançarinos de shows teatrais e de boates. Numa noitada em Brasília, conhecem dois cantores e dançarinos locais, o candango Tonico (Ankito) e a mulata Odete (Vera Regina). Davies Jr. logo cresce o olho em Odete e Tonico se derrete por Gilda.

Como não devia deixar de ser, algumas confusões depois e Davies Jr. é obrigado a se casar com Odete (que obriga seu marido a levar Tonico como bagagem adicional, transformando a vida de Davies Jr. num inferno).

Os quatro partem para o Rio, Davies Jr. e Gilda voltam para o sucesso na boate onde trabalham e Tonico e Odete não conseguem emprego.

Numa noite onde Tonico e Odete foram assistir ao show de Gilda e Davies Jr., Odete entra no meio do numero musical e é aplaudida pelo público. O dono da boate deseja contratá-la, mas ela só aceita com a condição de Tonico ir junto…o dono nega, e inicía várias armações para separar as duas duplas.

No jogo entre os quatro artistas verifica-se o racismo à brasileira, explicitado em tom brincalhão num número musical entre Grande Otelo, Vera Regina (de peruca loura) e Marina Marcel. As duas mulheres encenam no palco uma disputa pelo amor de Otelo. Enquanto Vera Regina afirma a união entre o crioulo e a mulata, Marina Marcel tenta expulsar Vera Regina, dizendo que preto com preto só dá escuridão.

A loura Gilda também vive maus momentos amorosos. Ela é perseguida por um playboy milionário e colunável, Bebê Pinho Otário (Mozael Silveira), que não tem o menor sucesso com a moça. Quem vai acabar conquistando-a com seu talento, seu ar ingênuo e sua espontaneidade é mesmo Tonico. Já na segunda metade do filme, eles estarão namorando. Ocorre que, por uma série de armações do empresário de Davies Jr. e de Gilda (vivido por Milton Carneiro), as duplas entram em desentendimento e são desfeitas: Davies Jr. e Odete ficam de um lado; Tonico e Gilda, de outro. É claro que, como se trata de uma comédia, o mal-entendido vai ser explicado e os quatro voltarão a se unir, mas desta vez livres do jugo do empresário sovina. A idéia é produzir de forma independente um show que possa unir os dois dançarinos e cantores negros Davies Jr. e Odete ao casal de dançarinos e cantores brancos Tonico e Gilda. Isso de fato ocorre, não sem explodirem os atritos entre os novos produtores independentes e o antigo empresário, que tenta sabotá-los de todas as formas, financeira e judicialmente. Quem salvará as duas duplas? O milionário Bebê Pinho Otário, distribuindo cheques a torto e a direito e dizendo em tom de suspiro: “É chato ter dinheiro…!”

Trata-se de um filme produzido por Hebert Richers, um famoso desconhecido cujo nome você já deve ter ouvido ao assistir um filme dublado, principalmente na “Sessão da Tarde”…

Afinal quem nunca escutou nos creditos de abertura: “Versão Hebert Richers”?

Roberto Faria, o diretor não queria ter feito esse filme. Até se envergonhava de assina-lo. Queria fazer um filme mais autoral, uma crítica social, algo mais proximo do movimento “Cinema Novo”.

O racismo nesse filme não foi tratado como um problema, mas como um dos elementos da trama servindo de base para muitas piadas sem problema nenhum.

Um Candango na Belacap poderia ser visto, assim, como uma chanchada visionária sobre o cinema novo. O nacionalismo, o racismo e a produção “independente” são questões que lhe dizem respeito.

Nota 8

resenha por Priscila 

One comment

  1. Um filme antigo para mudar um pouco … temos só filmes recentes, algo diferente dessa vez.



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